sábado, 26 de julho de 2014

Missão de Paz no Haiti

Para um trabalho acadêmico, fiz uma entrevista sobre a Missão de Paz no Haiti, com o Soldado Rafael Freitas. Confira!

Missão de Paz no Haiti
A Missão as Nações Unidas para a estabilização do Haiti (MINUSTAH) foi criada pelo Conselho de Segurança da ONU em abril de 2004, com o objetivo de restaurar a ordem no Haiti. Chamada também de Missão de Paz, ela é feita por diversos países, principalmente pelo Brasil, que tem o maior número de militares no país. O brasileiro Rafael Freitas, de 23 anos, residente no Rio de Janeiro-RJ, foi um dos escolhidos para a missão no Haiti. Soldado da Força Aérea Brasileira há 5 anos, ele viajou para p Haiti em janeiro de 2012 e nos conta um pouco da sua experiência no país haitiano.

Qual o objetivo da Missão de Paz? O que exatamente vocês faziam lá?
O objetivo era a estabilização do Haiti. Tínhamos força policial. Fazíamos rondas em perímetros determinados, missão de segurança de autoridades, zona de proteção de pouso, escolta de materiais, alimentos e pessoal, confronto urbano (manifestações, na maioria das vezes), recreação com crianças. Tiveram militares que realizaram partos na rua.

Como eram essas recreações com as crianças? Elas ficavam com medo de vocês?
As crianças nos adoravam. Saíamos fardados para distribuir doações de brinquedos, alimentos e água, às vezes íamos de palhaço. Juntava dezenas de crianças ao nosso redor. Elas adoravam nos abraçar.

O resto da população também aceitava vocês de forma amigável?
Não. Os mais velhos tinham certa dificuldade, falavam que estávamos roubando o país deles. Várias vezes a gente passava pela rua e a população (uma minoria) tacava pedra em nossa viatura.

As Missões acontecem só por causa do terremoto?
Não. Já estamos lá há 10 anos. O terremoto foi em 2011. A ONU entrou no Haiti por causa de uma guerra civil que o governo não conseguiu controlar. As tropas brasileiras acabaram com a guerra em mais ou menos três anos. Agora estamos lá para manter a ordem até eles andarem com as próprias pernas. Também existe o interesse político brasileiro em ficar lá até conseguir uma cadeira cativa na ONU.

Como acontece a escolha dos soldados que vão pra Missão de Paz? A Força Aérea que escolhe ou vocês se oferecem pra ir?
A cada semestre a FAB (Força Aérea Brasileira) designa uma ou duas cidades que irão compor o Contingente dela naquele semestre. No meu caso foi o Rio de Janeiro. O método de escolha primeiramente é ser voluntário e a partir daí existe a seleção, com diversos testes para selecionar os voluntários mais capacitados.

Existiu uma preparação especial para vocês viajarem para lá?
Existiu. Fizemos vários cursos ministrados pelo Exército Brasileiro, que duraram cerca de seis meses, sendo dividido em três cidades: Rio de Janeiro (RJ), Campinas (SP) e Lins (SP).

Como eram esses cursos?
No Rio fizemos o curso de adaptação das tropas da FAB ao Exército Brasileiro. Em Lins e Campinas fizemos os cursos prática operacional e o estágio prático de confronto urbano e operações.

Quantos militares foram com você?
Foram 29. Fomos divididos em 3 GC (grupamento de combate). Cada GC tinha 6 soldados, 2 cabos e 1 sargento. Tinha também um oficial comandante e um sargento sub-comandante. Fomos e voltamos juntos, mas não ficávamos juntos lá.

Vocês eram comandados pelo Exército. Existia alguma dificuldade quanto a isso?
Éramos o 4º Pelotão da Terceira Companhia do Exército lá. O comando da Missão no Haiti é feita por um general do Exército. Como ficamos seis meses antes dentro do quartel do EB, não tivemos muitas dificuldades.

Qual a primeira impressão que você teve ao chegar lá?
Miséria. Um choque de cultura, um povo necessitado, com fome, sede, um povo esquecido pelo governo. Um povo que já sofreu de tudo, que faz a gente repensar em como reclamamos “de barriga cheia”. Porém, um povo que mesmo com todas as dificuldades te recebe com um sorriso no rosto e um abraço especial.

Qual era a situação do país?
A situação do país era de total destruição, tendo em vista que além da miséria de séculos, no ano anterior, havia sofrido um terremoto que destruiu a capital, Porto Príncipe (parte mais populosa do país), e matado centenas de milhares de pessoas. Podíamos ver o lixo, esgoto, tudo a céu aberto, água sem tratamento. A população vivendo com 90% da sua totalidade em “IDP’s”, que são grandes bairros de barracos feitos de lona e madeira.

Como é a vida dos moradores lá? Como sobrevivem?
Um haitiano acho que vive com 5 dólares ao mês, não sei exatamente. A moeda deles é mega desvalorizada. Eles vivem de diversas coisas, uns tem empregos, outros plantam, outros fazem bicos, e eles vivem muito de troca. Eu tenho uma maçã e você uma água, vamos trocar? Um haitiano faz em média 5 refeições na semana. Ou seja, tem dia que eles não comem.

Qual foi a sensação de sair do Brasil, do conforto do lar, da família, e ir para um país totalmente desconhecido?
Difícil. No embarque eu chorava muito. Mas a vontade de ajudar aquele povo e a sensação de um sonho realizado foi maior.

Teve alguma situação que aconteceu e te marcou de forma especial?
Graças a Deus não tivemos muitos sustos. Coisas rotineiras e previstas. Algo que me marcou foi numa manifestação, que estávamos tentando controlar e a população começou a cantar o Hino Nacional do Haiti vibrantemente e eu fiquei a pensar. O povo é miserável e analfabeto, mas o amor deles pela pátria é algo que me deixou arrepiado.

Qual o benefício para o Brasil em participar das missões?
Reconhecimento da ONU. O trabalho que está sendo feito lá é muito bom, e esse reconhecimento pode nos dar uma cadeira cativa na ONU.

Sua tropa tinha contato com os militares de outros países? Como era?
Sim. Não tínhamos contato direto, mas em alguns eventos comuns as tropas tinham contato. Era bem amigável, a dificuldade era a comunicação.

Quais os países que você lembra que tinham militares lá?
Pergunta covarde (risos). Vamos lá: Nepal, EUA, Colômbia, Argentina, França, Itália, Cuba, Uruguai, China, Japão, Canadá. Alguns desses países tinham somente um militar lá.

Independente do país que o militar era, todos tinham a mesma aceitação por parte dos haitianos?
Quem mais recebia carinho eram os brasileiros, porque 80% do contingente militar no Haiti é do Brasil, então a gente tinha mais contato com a população. Muitos países mandavam apenas médicos ou apoio logístico, ou apenas para trabalhar no Estado Maior da ONU, então eles quase não iam para a rua.

Você acredita que o Haiti já tem condições de estabelecer sua independência?
Acredito que sim. Os países lá estão como força policial porque a polícia de lá ainda é pouca e despreparada, mas já vem sendo montada uma boa estrutura política lá.

Vocês recebem alguma recompensa quando voltam?
Além do nosso salário que ganhamos normalmente aqui, lá ganhamos salários em dólar, e ao irmos e voltarmos, ganhamos um salário extra em dólar.

Você ficou 8 meses lá. Todos os brasileiros que vão ficam esse mesmo tempo? Pode ficar mais do que oito meses?
A missão pode durar de 6 a 8 meses. Somente em casos de extrema necessidade o militar fica mais tempo, porém não pode passar de um ano.


Em que essa experiência de ir para a Missão de Paz mudou sua vida?
Aprendi a parar de “reclamar de barriga cheia” e pensar mais nos outros, principalmente nos necessitados.

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